Ciclofemini
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Quem são e o que desejam os divertidos (e às vezes agressivos) ativistas pró-bicicleta que formam a Massa Crítica –movimento que ficou famoso depois de ser atropelado pelo motorista gaúcho em dia de fúria
Começou na China, e sem bicicleta.

Como não havia sinalização para pedestres, atravessar as ruas naquele país exigia a força da massa. O pessoal então ia se juntando na calçada –um, dois, dez, cem, 200 chinesinhos. Quando se julgavam um bloco suficientemente coeso, metiam o pé no asfalto e iam em frente.
A Massa Crítica, movimento mundial e espontâneo de ciclistas que lutam pelo direito de não virar patê, nasceu na Califórnia, em 1992, inspirada nesse atravessar de ruas “made in China”. No Brasil, ganhou as manchetes quando um grupo de adeptos foi atropelado pelo funcionário do Banco Central Ricardo Neis, em Porto Alegre, há um mês. Neis está no Presídio Central de Porto Alegre e pode responder por 17 tentativas de homicídio triplamente qualificado.
Desde o seu surgimento, a Massa Crítica se expande como um movimento anárquico, sem liderança, cujo QG é a internet. Como se fosse uma Praça Tahir (no Egito) que se pusesse em marcha sobre duas rodas. Está presente em 325 cidades do mundo, de Montreal a Budapeste. Em São Paulo, começou a se formar com os “nightbikers” que percorrem a noite desde o fim dos anos 80, ensina Renata Falzoni, bike-repórter da Rádio Eldorado e cicloativista –palavra que o dicionário ainda não registra.

Na capital paulista, a Massa Crítica ganhou o nome de Bicicletada. “Em 2006 já conseguíamos manter um grupo de 40 pessoas. Dava uma massinha”, conta André Pasqualini. “Hoje são cerca de 400 ciclistas.” Pasqualini é o fundador do blog CicloBr, que virou Instituto CicloBR de Fomento à Mobilidade Sustentável –ONG que, de certa forma, faz a voz da Massa Crítica no Brasil.
Antes de qualquer coisa, a Massa é um ajuntamento de gente e de bicicletas. Nas principais capitais do mundo, as brasileiras inclusas, seus encontros acontecem na última sexta-feira do mês –em Porto Alegre, o atropelamento se deu em 25 de fevereiro. Se por algum motivo for necessário cancelar a reunião, esqueça, uma maioria de desavisados certamente vai aparecer. “A Massa Crítica”, diz Felipe Aragonez Benevides, secretário geral do CicloBR, “é uma coincidência organizada”.

Em sites como o www.massacriticapoa.wordpress.com (de Porto Alegre) há uma espécie de manual para montar uma Bicicletada na sua cidade. Ali também somos informados de que “rolhas” são ciclistas destacados para bloquear a passagem de carros enquanto a massa atravessa um cruzamento. E que “lesmas” são os retardatários. Se quiser entrar num mailing da turma, consulte o www.bicicletada.org.

A Massa Crítica tem por mote o slogan “Um carro a menos” – no trânsito da cidade, uma bicicleta a mais significaria um carro a menos, motivo pelo qual o ciclista deveria ser tratado com gentileza. “O movimento é mais uma ferramenta para a mobilidade sustentável”, defende Falzoni. “O que se propõe não é uma guerra contra o motorista. Somos contra a ‘carrodependência’ a que a política pública nos obriga.”

Para além da justa reivindicação de mais democracia no trânsito, a Massa Crítica floresce com a preocupação ambiental e a demanda por qualidade de vida. Cidades como Nova York e Barcelona parecem convertidas à causa –a primeira construiu mais de 400 km de ciclovias nos últimos quatro anos; a segunda investiu no modelo francês de empréstimo de bicicletas, colocando 6.000 unidades nas ruas e agregando perto de 200 mil usuários desde 2007.
Em São Paulo, os 37,5 km de ciclovias foram ampliados na marra, quando ativistas pintaram bicicletinhas indicativas por algumas das ruas mais movimentadas da cidade. A avenida Sumaré está cheia delas, assim como a ponte da Cidade Universitária. Não se sabe quem deu a ideia.

Uma das marcas da Massa Crítica em todo o mundo é o humor. Na capital paulista, a Bicicletada já reuniu ciclistas de terno e gravata. Numa outra ocasião, trajaram-se para uma festa junina. Em 2008, aderiram ao World Naked Bike Ride, a Bicicletada Pelada. Um fica pelado, o outro também, e Pasqualini foi parar na delegacia. Lá fora, a massa bradava: “Ô seu delegado, libera o pelado!”.

No ano passado, a ação dos descamisados foi registrada no calendário “Como Nus Sentimos”, que pretendia levantar fundos para a CicloBR. Vinte e quatro pessoas, entre anônimos e famosos, toparam o nu ciclístico (aqui reproduzido). Uma delas foi a ex-petista Soninha Francine, ex-vereadora e ex-motoqueira, hoje no PPS.
Em São Paulo, o ponto de encontro da Massa Crítica é a praça do Ciclista (nome oficializado em 2007), no cruzamento da Paulista com a Consolação. Pedalar com a turma é divertido –em um grupo tão grande, você se sente 100% seguro para admirar a cidade da perspectiva, que não nos ouçam, de um carro conversível.

Já o ativismo praticado por seus adeptos não é uma unanimidade. Bárbara Gancia, colunista da Folha, sentiu-se vítima de “bullying via Twitter” ao defender ponto vista diferente dos “radicais” da bicicleta. “Não sou contra ciclistas, mas tem gente que não admite o contrário”, diz, “e parte para uma atitude totalitária, que nada tem a ver com democracia”. Pedala, Massa Crítica!