A mais temida entre as maldades cometidas pelos espíritos da floresta, para os indígenas, era o roubo de alma, pois ela extraía do guerreiro sua principal arma: a identidade.

Se a alma existe e se ela se resume em nossa mente e em nossos sentimentos, penso que os tais espíritos das florestas, hoje habitam os corpos de vários seres humanos tornando-os ladrões de almas.

Estes espíritos no formato de agressividade, intolerância, impaciência, falsidade, maldade, desonestidade, desrespeito, inveja, traição; roubam a alma não só do corpo que os hospedam, mas também daqueles outros seres ao seu redor.

Jung cita em “O Homem e Seus Símbolos”: “… um dos acidentes mentais mais comuns entre os povos primitivos é o que eles chamam de “a perda da alma” – que significa, como bem indica o nome, uma ruptura ou, mais tecnicamente, uma dissociação da consciência. Isso significa que a psique do indivíduo pode fragmentar-se facilmente diante de emoções incontidas”.

Segundo Léa Lima, pedagoga e psicoterapeuta, essa fragmentação ocorre diante de fatos da nossa vida que, por serem traumáticos, resistimos em enfrentá-los e, dessa forma, cindimos a nossa energia vital tornando-nos fracos e desanimados.

Marie Von Franz, analista Junguiana escreveu: “A perda da alma pode ser observada hoje como um fenômeno psicológico na vida cotidiana dos seres humanos que nos cercam. A perda da alma aparece na forma de um súbito início de apatia e desânimo; a alegria sumiu da vida, a iniciativa está mutilada, a pessoa se sente vazia, tudo parece sem sentido.

Hoje roubaram a minha alma. Parada no trânsito, fui assaltada e agredida. Naqueles poucos minutos, diante da agressividade do assaltante com a arma apontada para o meu rosto me lembrei de todos os outros momentos recentes em que fui agredida verbalmente, moralmente, emocionalmente e psicologicamente.

No instante em que levei a pancada na cabeça senti que foi dizimada a última parte da minha alma que ainda persistia em lutar por uma vida mais justa e mais honesta. Persistia em lutar para ser amada e respeitada.

O dia de hoje representou o ritual final da sublimação da minha alma. Logo cedo recebi e-mails com palavrões, com sarcasmo, com intimidação. Ouvi palavras duras, vazias e frias de quem eu esperava receber um pouco de carinho e, o ponto alto deste ritual perverso culminou no assalto seguido de agressão em meio ao trânsito insano de uma cidade onde as pessoas se esquecem que o ser ao seu lado é também um ser vivo.

O que será que estes espíritos tão inquietos buscam nos dias de hoje? O que eles ganham aprisionando a alma alheia?

Uma das maiores injustiças é o roubo da alma, do espírito e dos sentimentos de alguém.

Estou diante deste fenômeno psicológico que aprisionou a minha alma e esvaziou o meu corpo.

Os indígenas para devolver a essência, a alma, que fora subtraída do guerreiro, se enlaçavam em torno do corpo vazio e faziam um ritual de rememoração, em que a vida, as crenças e os sentimentos do guerreiro eram repassados ininterruptamente até que a sua alma fosse devolvida.

Esta noite não vou dormir. Vou fazer o meu ritual de rememoração até que a minha alma seja devolvida, até que eu recupere a minha identidade, até que meu corpo seja preenchido com o calor do meu amor próprio.