Sou muito observadora principalmente dos comportamentos e relacionamentos humanos e, desde quando comecei a pedalar percebi que o mundo do ciclismo tem algumas características muito distintas de outros esportes.

Antes de entrar para o ciclismo pratiquei vários outros esportes: tênis, natação, rafting, esgrima, patinação, wakeboard, windsurf,corrida  entre outros.

Em nenhum destes esportes, pelo menos na minha vivência, encontrei uma comunidade tão unida e receptiva quanto a de ciclistas.

Quando os ciclistas se encontram para fazer um passeio todos parecem ser amigos de infância, quando na realidade muitos deles estão se conhecendo naquele momento do encontro. 

Os ciclistas trocam muitas informações a respeito de equipamentos, rotas, dietas, suplementos, roupas, lugares bacanas para pedalar e por aí vai. Não há economia de informação e cada um tem a chance de conhecer as coisas boas do mercado, os lançamentos, o que está na moda, etc.

Outra característica interessante é que não existe distinção entre classes sociais, raça e credos. Um ciclista que tem uma bicicleta muito simples pedala ao lado de ciclistas com bicicletas de alta tecnologia.

O gosto pelo pedal é o ponto comum e isso basta. O restante não tem tanta importância, por isto qualquer pessoa que ingressa neste esporte é bem recebido e se integra facilmente, fato que alimenta ainda mais a paixão pelo ciclismo.

Não há nada mais gostoso, mais gentil e cativante do que ser super bem recebido por um grupo de esportistas de bem com a vida e amáveis.

Percebi que a única, se é que exista, divisão entre os praticantes do ciclismo dá-se no tipo de pedal, ou seja, de acordo com a modalidade de ciclismo que mais atrai o esportista. Oficialmente o ciclismo é dividido em quatro categorias: provas em estradas, provas em pistas, provas de montanha (Mountain Bike) e BMX. Mas em cada categoria é natural a formação de grupos distintos.

Os ciclistas que usam a bicicleta do tipo “speed”, chamados de “speedeiros”, são considerados elitizados pelos que praticam o mountain bike. Na minha opinião as bicicletas speed são mais elegantes, também as roupas, capacetes, enfim o conjunto me dá a sensação de mais harmonia e elegân cia e os ciclistas em si são tão bacanas como os que praticam Mountain bike ou BMX.

Tenho uma bicicleta speed muito simples que uso apenas no rolinho e algumas vezes para treinar um giro. Quando encontro o grupo de “speedeiros” todos me recebem bem e com paciência pedalam ao meu lado me incentivando e motivando a continuar com o pedal.

Na categoria mountain bike tenho convivido com várias “tribos”. Tem aqueles que adoram um pedal pesado, não dispensam nenhuma pirambeira e quanto mais dura e mais desafiadora a trilha, mais felizes ficam. Este tipo de percurso tem em média 40Km.

Há os que gostam de trilha com terra batida, preferem o passeio, curtir a paisagem sem grandes esforços, gostam de pedalar grandes distâncias, desde que a trilha seja relativamente fácil. Estão acostumados a pedalar distâncias longas acima de 80Km.

Há aqueles que preferem as cicloviagens, normalmente pedalam mais de um dia seguido e carregam muito peso nas bagagens quando não dispõem de carro de apoio. Outros preferem cicloviagens com apoio e toda a mordomia que puderem pagar.

Vejo a diferença não somente na modalidade de pedal, mas também no tipo de investimento que fazem em seus equipamentos.  Muitos ciclistas são aficionados por alta tecnologia, usam bicicletas sofisticadas, de carbono, com freio a disco, hidráulico, suspensão inteligente e uma série de componentes que conferem a magrela um desempenho incrível facilitando sobremaneira o pedalar do seu usuário. Há os que preferem não fazer tal investimento, não são aderentes ao modismo e nem a alta tecnologia por uma questão de custo e também por cultura, pedalar simplesmente é o que lhes basta.

Considero-me uma ciclista privilegiada, pois tenho freqüentado todo tipo de grupo. Esta flexibilidade tem me proporcionado momentos maravilhosos e um aprendizado importante no que se refere às diversas técnicas de pedalar, no estilo de trilha ou passeio e principalmente no relacionamento humano.

É fato, em nenhum esporte obtive as alegrias que estou tendo com a prática do ciclismo. E em nenhum outro esporte, e me arrisco dizer que em nenhuma outra área de minha vida fiz tantas amizades e encontrei tanta gente legal e de bem com a vida.

Independentemente de qual tribo faça parte, todos os ciclistas, ou pelo menos todos os que conheci, e são muitos, tem em comum o senso prático, a simplicidade, o gosto pela liberdade, o gosto e respeito pelo meio ambiente, a solidariedade, a amizade e certamente uma profunda paixão pelo esporte.

Depois de um ano pedalando, vivenciando tantos desafios e oportunidades sinto que mudei, mudei meu modo de ver o mundo e tudo a meu redor. Muito dos meus valores já não existem mais, foram substituídos por outros que considero melhores e até mais profundos.

A simplicidade e o movimento do pedalar traduzem o que vivo hoje. Sinto-me em constante movimento, com fluidez e leveza. A prática do ciclismo me trouxe simplicidade, a alegria de viver e saborear cada momento da vida.

E você, faz parte de qual tribo?

 

obs.: Fotos do arquivo de imagens do Google.