As minhas duas participações na Brasil Ride em 2011 e agora em 2012,  deram-me um aprendizado muito profundo de como lidar com situações de elevada pressão.

Nas duas semanas que antecederam a competição tive problemas pessoais. Infelizmente minha mãe sofre de Alzheimer e tive que lidar com diversos problemas decorrentes desta enfermidade que assola não somente a pessoa enferma, mas todos os membros da família diretamente envolvidos com os cuidados do paciente. Além disto, tive um acúmulo de trabalho,  deixando-me fisicamente desgastada.

Já em Mucugê, BA, no segundo dia da prova, o mais longo, acordei com dor de dente. Fiquei extremamente apreensiva. Estava na dúvida entre falar com o meu parceiro ou não. Optei por não falar para não deixa-lo apreensivo. Sabia que o segundo dia era o mais difícil, e determinante para manter-se livre de cortes e assim manter viva a possibilidade de ganhar a camiseta de “finisher”.

No percurso da segunda etapa, quando cheguei ao portal de entrada do famoso “Vietnam”, meu dente doía insuportavelmente, consequentemente meu desempenho começou a cair. Apesar de estarmos com 20 minutos de vantagem, o tempo foi consumido facilmente durante o percurso e infelizmente chegamos ao último ponto de corte acima do tempo limite. (Deve-se entrar no “Vietnam” com o máximo de tempo extra.)

Certamente o problema com o meu dente deu-se devido a queda de resistência que foi provocada pelo estresse das semanas anteriores, associado ao esforço físico, calor extremo, o próprio estresse da competição, no desejo e no sentimento de obrigação de completar todas as etapas e conseguir a camiseta de finalista.

Depois de conseguir tratamento dentário e um pouco mais conformada, comecei a observar o comportamento de diversos atletas. Percebi que o fator emocional, mais que o preparo físico, foi crucial para o insucesso de muitos deles. O abatimento e a frustração de não completar uma etapa da prova assolou o emocional de muitos, parecendo que todo o esforço feito até o momento tinha sido em vão. A prática esportiva demanda cada vez mais dos atletas resultados expressivos, a pressão é imensa e expõe em demasia os atletas socialmente.

Senti isto na pele. Tentava fugir da famosa pergunta: “E aí completou?”.

No segundo dia, dos 143,56 Km, pedalei 125Km, passando pelo Vietnam, e confesso que ao final do dia me sentia incompetente ou despreparada, me esquecendo da dor infernal do dente e que a mesma me causou a queda de desempenho.

No momento do estresse turbilhões de pensamentos passam pela cabeça. Perguntas, acusações e culpas, tudo ao mesmo tempo. Os pensamentos negativos vão minando cada momento vivido. Nos dias posteriores tratei de equilibrar o meu emocional e passei a positivar meus sentimentos. Trabalhei mentalmente o meu auto-reconhecimento, trouxe a memória todo o trabalho que desenvolvi para conseguir chegar àquela competição que é temida e deseja por “mountain bikers” no mundo inteiro.

Esta experiência me inspirou a pesquisar sobre o assunto e compartilho com vocês informações importantes de estudos realizados pelos doutores em Psicologia: Valentina D’Urso,  Richard S. Lazarus, Mark Anshel e George. S. Barbosa.

Estresse x Rendimento

O estresse torna-se um dos fatores principais na falta da obtenção do rendimento máximo em situações competitivas. Uma competição importante produz sempre excitação aumentada, ansiedade e tensão, e é comum o surgimento de emoções que desviam os processos cognitivos daquilo que importa para a alta performance.

Além da pressão competitiva propriamente dita, o atleta ainda experiência erros técnicos, erros tácticos, erros dos colegas de equipe, tácticas dos oponentes e decisões dos árbitros com as quais têm de saber lidar.

Estes fatores concorrem para que os atletas quebrem sob pressão, algo que é comum mesmo em atletas de elite.

O desequilíbrio emocional é um tormento há vários anos para muitos atletas. Não basta saber lutar, nadar, saltar bem, pedalar bem. O controle emocional é decisivo quando o atleta está diante de adversários competentes e sabe que milésimos de segundo a menos, ou uma jogada diferente a mais, colocarão ou não, o seu nome na história.

Resiliência Psicológica

A resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse etc. – sem entrar em surto psicológico. A resiliência é uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.

Gestão do estado emocional

A gestão do estado emocional assume importância decisiva, pois as emoções experienciadas antes, durante e após a competição podem influenciar determinantemente os feitos presentes e futuros dos atletas. É importante observar a importância do conteúdo qualitativo das emoções e sua intensidade. A mesma emoção pode ser percebida como positiva por um atleta e negativa por outro, dependendo das associações que os atletas a ela atribuem, da avaliação da significância pessoal da situação.

a) A percepção de controle é fundamental para a gestão das emoções

b) As emoções pré-competitivas são importantes, mas não suficientes para lidar com o inesperado, na competição. Lidar com o esperado, mas, sobretudo, com o inesperado, é fundamental para um atleta em situação competitiva.

O estresse pode ocorrer associado a emoções negativas, mas também a emoções positivas, tendo como uma das manifestações mais conhecidas, a ansiedade. Os estímulos ameaçadores ou estressantes são avaliados por cada indivíduo, não sendo a resposta uma função linear do input. A interpretação da percepção da intensidade e controle sobre a situação, influenciam a forma como cada indivíduo lida com o estresse. A ansiedade é uma resposta a uma ameaça percebida, associada a uma incerteza relativamente ao que irá suceder. Pode ter um efeito facilitador ou inibidor da performance, dependendo da forma como o atleta interpreta os seus sintomas e, novamente, da sua percepção de controle sobre os acontecimentos.

Antes da competição, o ideal será que o atleta experiencie níveis de ansiedade dentro da sua zona óptima de funcionamento. Uma ansiedade demasiada baixa pode gerar um relaxamento excessivo e, até, um descomprometimento com a atividade, prejudicando a performance.

Uma elevada ansiedade cognitiva permite elevadas performances, quando associada com reduzida excitação fisiológica. Em casos de elevada ansiedade cognitiva, a partir de um limiar de excitação fisiológica, atinge-se um ponto crítico, resultante numa alteração radical do comportamento, induzindo quebra acentuada de performance (modelo da catástrofe).

A auto-confiança ajuda os atletas a gerirem elevados níveis de ansiedade cognitiva, pois aumentam a sua percepção de controle e, consequentemente, as suas expectativas de alcançar os objetivos estabelecidos. Ou seja, a auto-confiança não parece reduzir a ansiedade cognitiva, mas ajuda a lidar com ela. Os indivíduos com baixa auto-confiança tendem a encarar a ansiedade como debilitadora da performance. Esse aspecto poderá ser camuflado em situação de treino, mas tende a surgir na competição, sendo estes indivíduos altamente sensíveis a qualquer percepção de ameaça.

Estratégias para lidar com elevada pressão

Na véspera de um evento importante, os atletas devem tentar esvaziar a sua mente e/ou pensarem em coisas agradáveis não relacionadas com ele. Além disto, deve-se alongar os músculos enquanto deitado, e alternar contração e relaxamento de cada grupo muscular. Uma música suave de fundo pode ajudar.    Cada atleta tem o seu estado ótimo de ativação. Assim, antes da competição, o treinador ou o próprio atleta terá de estimular uns, e relaxar outros. O atleta deve recorrer a pensamentos positivos, baseados em imagens de sucesso do passado, recordando-se, inclusivamente, das sensações físicas e psíquicas sentidas nesses momentos, algo que também pode ser utilizada durante a competição.

O diálogo interno, ou auto-conversa, é uma estratégia recorrentemente utilizada pelos atletas para controlarem os seus pensamentos e estado de humor. A auto-conversa deve ser específica e positiva. O auto-diálogo negativo durante a competição são potencialmente destrutivos. Não obstante, dentro de certos limites, a auto-conversa negativa pode efeitos no aumento da concentração e na tentativa de evitar o erro. Todavia, a partir de um limiar –  isso pode quebrar a auto-confiança do atleta.

Uma estratégia eficaz para relaxar fisicamente é respirar profunda e pausadamente, sentindo os músculos no decorrer dessa ação, percebendo a alternância de tensão e relaxamento.

Estratégias de longo prazo – Fatores

Administração de emoções: Refere-se à habilidade de se manter sereno diante de uma situação de estresse. Pessoas resilientes quanto a esse fator, são capazes de utilizar as pistas que leem nas outras pessoas para reorientar o comportamento, promovendo a autorregulação. Quando essa habilidade é rudimentar, as pessoas encontram dificuldades em cultivar vínculos e, com frequência, desgastam no âmbito emocional aqueles com quem convivem em família ou no trabalho.

Controle dos impulsos: Um segundo fator é o controle de impulsos, que se refere à capacidade de regular a intensidade de seus impulsos no sistema neuromuscular (nervos e músculos). É a aprendizagem de não se levar impulsivamente pela experiência de uma emoção. As pessoas podem exercer um controle frouxo ou rígido do seu sistema muscular, visto que esse sistema está vinculado à regulação da intensidade das emoções. Dessa forma, a pessoa poderá viver uma emoção de forma exacerbada ou inibida. O controle de impulso garante a autorregulação dessas emoções ou a possibilidade de dar a devida força à vivência de emoções, tornando o grau de compreensão mais sensível e apurado mediante a situação.

Otimismo: Um terceiro fator é otimismo. Nesse fator, ocorre na resiliência a crença de que as coisas podem mudar para melhor. Há um investimento contínuo de esperança e, por isso mesmo, a convicção da capacidade de controlar o destino da vida, mesmo quando o poder de decisão esteja fora das mãos.

Análise do ambiente: O quarto fator é a análise do ambiente. Trata-se da capacidade de identificar precisamente as causas dos problemas e das adversidades presentes no ambiente. Essa possibilidade habilita a pessoa a se colocar em um lugar mais seguro ao invés de se posicionar em situação de risco.

Empatia: A empatia é o quinto fator que constitui a resiliência, significando a capacidade que o ser humano tem de compreender os estados psicológicos dos outros, emoções e sentimentos, colocar-se no lugar do outro.

Autoeficácia: Refere à convicção de ser eficaz nas ações propostas.

Alcance de pessoas: É a capacidade que a pessoa tem de se vincular a outras pessoas para viabilizar soluções para intempéries da vida, sem receios e medo do fracasso.

MCDs – Modelos de Crenças Determinantes

De 2006 até agora, as pesquisas possibilitaram ampliar os entendimentos sobre a resiliência. É vista agora como o resultado de crenças determinantes que se organizam em blocos denominados modelos. Esses MCDs, são estruturados desde a primeira infância. São crenças que se aglutinam quando vamos conhecendo/aprendendo/experimentando os fatos da vida com aqueles que nos cercam. Os MCDs são:

1. MCD de autocontrole – capacidade de se administrar emocionalmente diante do inesperado. É amadurecer no comportamento expresso, uma vez que será esse comportamento que irá ser lido pelas outras pessoas;

2. MCD de leitura corporal – capacidade de ler e organizar-se no sistema nervoso/muscular. É amadurecer no modo de lidar com as reações somáticas que surgem quando a tensão ou o estresse se tornam elevados;

3. MCD de otimismo para com a vida – capacidade de enxergar a vida com esperança, alegria e sonhos. É a maturidade de controlar o destino da vida, mesmo quando o poder de decisão está fora de suas mãos;

4. MCD de análise do ambiente – capacidade de identificar e perceber precisamente as causas, as relações e as implicações dos problemas, dos conflitos e das adversidades presentes no ambiente;

5. MCD empatia – capacidade de evidenciar a habilidade de empatia, bom humor e de emitir mensagens que promovam interação e aproximação, conectividade e reciprocidade entre as pessoas;

6. MCD autoconfiança – capacidade de ter convicção de ser eficaz nas ações propostas;

7. MCD alcançar e manter pessoas – capacidade de se vincular às outras pessoas sem receios ou medo de fracasso, conectando-se para a formação de fortes redes de apoio e proteção;

8. MCD sentido de vida – capacidade de entendimento de um propósito vital de vida. Promove um enriquecimento do valor da vida, fortalecendo e capacitando a pessoa a preservar sua vida ao máximo.

Cada um dos MCDs desenvolve resiliência em uma área da vida e o leque de todos eles juntos contempla a vida de uma pessoa.

Reflexões finais

Os atletas são colocados perante desafios difíceis, que exigem regularmente performances nos limites das possibilidades individuais. Acresce a isso, uma elevada exposição pública, com consequências para a imagem, enquanto atleta e enquanto pessoa.

A formação integral do atleta passa por: capacita-lo com estratégias de longo prazo, aliadas a estratégias de curto prazo, que lhe permitam lidar em situações de estresse com eficácia. Essas estratégias devem considerar a individualidade de cada um – o que serve para um atleta pode ser contraproducente para outro.

O atleta deve buscar ajuda e acompanhamento para que se torne capaz de lidar com as situações de elevada pressão que, falando verdade, constituem a essência da competição, sobretudo quando existe um equilíbrio de valor entre os oponentes.