TRAVESSIA DE CHOS MALAL A LOS ANGELES COM A EQUIPE DO MTB TOURS E DE PUERTO MONTT A BARILOCHE SEM APOIO.

Nossa viagem começou ainda em São Paulo com a preparação das bikes dentro dos malabikes que não podiam ser rígidos e nem volumosos por causa da segunda travessia de Puerto Montt a Bariloche que seria feita com parte da bagagem numa mochila nas costas e parte pendurada na bike. O Silas Guerriero, companheiro da viagem, optou por levar toda a carga nos alforjes sobre o bagageiro. As bikes chegaram a Buenos Aires em ordem e decidimos ir do Aeroporto de Ezeiza para o Aeroparque pedalando 40 km, onde tomaríamos o avião para Neuquem, já que achávamos que tínhamos tempo suficiente.

No caminho nos perdemos um pouco e acabamos numa correria louca pelo centro de Buenos Aires, andando até na contra mão, para chegarmos a tempo de fazer o check in e despachar a bike, isso depois de desmontar novamente as bikes e colocá-las dentro do mala bike. Como, na correria, não tirei a pressão da suspensão, quando chegamos a Neuquém a vedação e guia da bengala esquerda havia pulado fora do alojamento.

Depois de alguns momentos de tensão, recoloquei as peças no lugar e a suspensão voltou a funcionar normalmente. A nova Travessia pelo Paso de Pichachen, da mesma forma que a primeira que fiz de Malargue a Curicó, foi maravilhosa e eu diria até transcendental, como gostam de dizer alguns inclusive o Mariano, líder e organizador da travessia. A diferença dessa travessia da anterior é que logo no primeiro dia já avistávamos as montanhas com os picos cobertos de neve. Mas na anterior chegamos a altitudes maiores ( 2500m) Já na primeira noite no acampamento, a visão de nuvens de estrelas, que escondiam a posição do Cruzeiro do Sul, despertou em nós a vontade de dormir ao relento para podermos continuar a admirar o céu. Covardemente ficamos sós nos planos e acabamos preferindo a proteção das barracas.

Azar nosso, perdemos o espetáculo de vermos mais estrelas cadentes. Na divisa entre Argentina e Chile, depois de uma subida de 8 km de bike, subimos mais um pouco a pé e pudemos tocar a neve congelada numa montanha próxima. A alegria estava estampada no rosto e no sorriso de todos que brincavam e se divertiam com os tombos dos companheiros e até do meu. Misturada a visão do vulcão Antuco e da Serra Velluda ao longe, aquele foi o ponto alto daquele dia.

Os últimos dois dias foram de muito asfalto e vento contrário onde pedalávamos em grupo para diminuir a resistência do ar. Iniciamos um dos dias dispostos a fazer o percurso em tempo recorde e numa velocidade próxima dos 30 km/h, e os tabanos ( espécie de mutuca com ferroada muito dolorida) nos perseguiam as dezenas. Quando olhava para o chão via a sombra desses insetos circulando em volta de nosso corpo.

Com o movimento das pernas e a velocidade não tinham tempo para cravar suas mandíbulas, mas incomodavam um bocado e então pensamos. Vamos passar o grupo que está na frente, que era formado de argentinos e alguns brasileiros e largar esses bombardeiros encima deles. Com bastante esforço conseguimos, mas logo depois o cansaço nos venceu e o grupo que ultrapassamos, liderado pelo argentino Martin, um gigante de uns 2 metros de altura e uma bike tamanho 24, que arrastava todo o grupo atrás, nos ultrapassou e ,eu, pequeno que sou,me senti como se fosse um pequeno destróier sendo ultrapassado por um porta aviões.

Lá vieram novamente os insetos pra cima de nós, os nossos e os que estavam com eles. Depois de termos encerrado a travessia organizada pelo MTB Tours, pegamos eu e o Silas um ônibus para Puerto Montt ( 600 km para o sul) e de lá iniciamos a segunda parte da viagem de volta para a Argentina porém mais ao sul em São Carlos do Bariloche.

Essa parte da viagem seria realizada sem apoio, com toda a bagagem nas costas ou no bagageiro da bike, porém dormindo em hotéis. Depois de desfrutar as paisagens da primeira parte da viagem, achei que não veria mais muita coisa interessante, mas me enganei. O que fez falta foi a companhia dos já grandes amigos brasileiros e também do grupo de argentinos ( já estava me acostumando a entender melhor o castelhano) e do chileno radicado no Brasil, o Jorge, que fez muito sucesso entre todos com sua simpatia.

O Navid – irlandês também radicado no Brasil – fazia falta também com suas confusões de língua inglesa/portuguesa – o meu bike, o meu barraca. Ficou meio brabo quando um dia o chamei de escocês. Numa das longas descidas levou um tombo e estourou o capacete e quase quebrou “o cabeça”, como disse ele. Senti falta também das mulheres. Mulheres muito bem sucedidas em sua vida profissional e valentes guerreiras quando montadas em uma bike na subida das montanhas. Tenho grande admiração por elas.

No primeiro dia da segunda parte da viagem pedalamos 44 km de Puerto Montt a Ensenada. Gostei muito de Puerto Varas, uma cidade à beira do lago Lhanquiué, de águas transparentes e tão largo que quase não dava para ver a costa do outro lado. Ainda distante, avistávamos o vulcão Osorno refletindo sua imagem no lago.

Chegamos a Ensenada onde havíamos reservado um chalé (cabana) na beira do lago e o Andrés, que é o dono da pousada, gentilmente nos levou de caminhonete até o parque na base do cone do vulcão. Isso foi um premio para nós e evitou uma longa e demorada subida pela estrada asfaltada até o parque. Deixamos o carro. Subimos mais um pouco, empurrando as bikes pelos caminhos com areia e pedra vulcânica e depois de apreciar lá de cima o lindo visual do lago e a imponência das montanhas do outro lado do vulcão, descemos de bike até a pousada.

No segundo dia pedalamos em direção a Petrohué. No caminho visitamos o parque onde estão as corredeiras do Rio Petrohué. A água cristalina misturada aos resíduos minerais, da neve derretida que cai do alto das montanhas, nas corredeiras , nos deixou boquiabertos com sua cor indescritível. Agradeci a Inteligência Superior, na qual acredito, esse espetáculo.

A cada dia recebíamos um presente diferente. Chegamos ao porto de Petrohué , no lago de Todos os Santos, onde os barcos parecem flutuar no espaço devido a transparência da água. Embarcamos no catamarã e durante hora e meia atravessamos os 37 km em direção ao porto de Peulla.

Desembarcamos e fomos para o hotel. Há dois hotéis nesse pequeno lugar, os dois muito bons e caros. Ficamos no mais barato cujo quarto enorme e com duas camas muito largas, custou US$108,00 por dia. Almoçamos e fomos a pé visitar a cachoeira na encosta da montanha. O único ponto desagradável do lugar são os tabanos que não dão trégua para os visitantes. Notei que os mesmos atacam mais no sol.

Quando subimos a montanha em direção a cachoeira, no meio do mato, os mesmos desapareceram e apenas matei um que insistia em nos seguir. Junto da cachoeira há também uns cabos esticados entre as árvores para pratica do arvorismo e uma ponte pênsil. No terceiro dia partimos para Puerto Frias e passamos pelas duas aduanas. O início do dia foi muito duro.

O terreno era muito cheio de pedregulhos redondos (ripio) que me tiravam o equilíbrio que ficava pior no momento em que usava uma das mãos para matar os tabanos que atacavam aos montes. Tivemos que subir 7 km nessa situação onde a inclinação era de uns 10% e eu, deixando de lado o orgulho, acabei empurrando muito a bike junto com toda a tralha morro acima – 22kg de carga incluindo a bike. O Silas, mais jovem e mais forte e com 26 kg, conseguiu subir pedalando, embora parando constantemente.

Depois disso foi uma descida lenta, por causa dos pedregulhos e da instabilidade gerada pela bagagem, até Puerto Frias e a aduana da Argentina. A cor do lago Frias foi mais uma bela surpresa. Cor verde esmeralda? Sei lá. Só sei que é linda. Atravessamos os 4,5 km do lago de barco até Puerto Alegre. Em Puerto Alegre, depois de 3,5 km de pedal, pegamos outro barco no porto Blast até Puerto Pañuelo já em São Carlos do Bariloche. Foram 35 km de barco pelo lago Nahuel Huapi um lago tão lindo como os outros, cercado de belas montanhas.

Chegando a Puerto Pañuelo pedalamos 27 km até o centro da cidade onde achamos um hotel bem simples por 140 pesos (US$35,00)por dia em quarto com duas camas. Como já estávamos cansados ficamos por lá mesmo, sem disposição para procurar outros talvez mais interessantes. No quarto dia subimos até o topo do Cerro Otto onde há um restaurante giratório de onde avistávamos a cidade a beira do lago. Mais uma vista muito bonita e descemos pelas pistas de ski, que no verão servem muito bem como trilhas para bike.

No quinto dia a distância de ida e volta até o Cerro Tronador seria muito longa e fomos de ônibus até Pampa Linda ( 67 km). Pedalamos mais 8 km e chegamos à base do Tronador. Visitamos primeiro o Ventisquero Negro, um lado da montanha onde na parte baixa há um glaciar de cor escura e algumas cascatas na encosta da montanha.

Pedalamos depois até o outro lado e aí o visual foi o mais impactante de todos. Pela encosta da montanha desciam 3 cascatas formadas pela neve derretida. Com as rajadas de ventos fortíssimos, muitas vezes a água não chegava ao chão e as cascatas se transformavam em nuvens que logo depois caiam como chuvisco sobre nós. Uma fábrica de nuvens impressionante. Com pena de não poder apreciar por mais tempo, comemos algo no bar do parque e voltamos pedalando para o hotel. Nesse dia foram 83 km de pedal num sobe e desce constante, grande parte em volta do lago Mascardi, também com água de cor maravilhosa. No sexto dia fomos pedalando até a estação de ski e montain bike Cerro Catedral – 18km – e lá pagamos 65 pesos (US$16,00) para subir pelo teleférico quantas vezes quiséssemos e descemos várias vezes pelas trilhas de diferentes níveis de dificuldade.

 Quem mais se divertiu foi o Silas que adora um down hill em alta velocidade. Eu fico um pouco preocupado e não abuso muito pois, com 65 anos de idade não posso me quebrar e portanto desço mais devagar preferindo os trechos de maior dificuldade porém em baixa velocidade. Para os interessados, o custo total dessa viagem foi de US$3.100,00 ( incluído passagens aéreas) mas valeu. Agradeço muito ao Sampa Bikers e ao MTB TOURS.

O Mariano é um líder nato, ótima pessoa, que procura a confraternização entre todos e sua equipe também merece nota 10.

Zé Fevereiro – fevereirojl@uol.com.br