Ciclofemini
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Adriana Boccia

Quanto mais me dedico ao CicloFemini, mais tenho certeza de que escolhi um trabalho incrível, muito prazeroso. Entrevistar a Luciana Cox – Luli e a Adriana Dalman Boccia – Dri, foi uma experiência no mínimo divertida.

O alto astral destas duas mulheres é contagiante e faz bem a todos que estão ao seu redor. As duas são exemplos de persistência, foco, maturidade e muita garra.

Em suas respostas à minha entrevista ficou claro que as duas sabem o que querem da vida e sabem o que deixarão como legado as novas gerações.

CicloFemini: Quando foi o seu primeiro contato com a bicicleta?

Luli: Esporte é algo que faz parte da minha família e, desde sempre pratiquei. Bike não foi diferente, comecei cedo, não me lembro da minha primeira bike e nem aonde aprendi a andar…que louco né? Só me dei conta disso agora. Mas eu ia de bike para a escola. Nossa! Sério! na época do colegial, estudando no Colégio Objetivo do Morumbi, passava na casa de uma amiga minha e a gente seguia de bike pela marginal. Esse ritual se repetiu até sermos assaltadas.

Dri: Sempre adorei esportes. Desde pequena eu e meu irmão, pedalávamos na fazenda, acho que tive todos os modelos de Caloi até meus 15 anos. Até outro dia falamos nisso. Fazíamos muitas loucuras que hoje só faço nas competições. Pensando bem, pedalei praticamente todos os finais de semana de minha infância, isso é demais!

 CicloFemini: Neste primeiro contato com a bicicleta que emoção sentiu, no que pensou?

Luli: É muito louco pensar nisto eu não me lembro, imagino que seja porque o contato deve ter sido quando eu era muito novinha.

Dri: Quando se é criança me parece que os sentimentos são mais fortes, sei lá, não há o que ter medo, ou melhor, nada te prende. Lembro-me que a sensação era de alegria, liberdade, muito vento na cara e adrenalina, pois descer uma estrada bem íngreme sem freio era o máximo.

CicloFemini: Como a bicicleta passou a fazer parte da sua vida, foi por acaso ou você já sabia o que iria fazer?

Luli: A bike como o esporte sempre fizeram parte da minha vida, ela ficou forte nessa época do colegial em que usava ela como meio de transporte, ia da minha casa para o clube também, ou saia de casa apenas para passear. Adorava ficar subindo e descendo a rua do clube Paineiras, aquele subidão interminável, me dava muito prazer estar ali. Depois da época de colegial a bike ficou forte novamente quando descobri a corrida de aventura, ai passou a ser não só um meio de transporte, mas uma modalidade a ser treinada. Mais forte ainda em 2009 quando decidimos fazer o Cape Epic, a partir daí a paixão foi ficando cada dia maior e vieram várias provas em estágio.

Dri: Depois da adolescência, tudo muda um pouco. Não pedalei mais. Mas sempre quis ter um hobby em minha vida, mas não sabia qual. Sabia que um dia ia aparecer e apareceu. Quando eu já tinha 30 anos, me apresentaram a corrida de aventura. Nessas a bike começou de novo a fazer parte da minha vida, maravilha. Acredito que virei criança de novo.

CicloFemini: Como surgiu a idéia de criar a dupla Flower People, usar roupas cor de rosa e divertidas?

Luciana Cox

 Luli:Quando eu fui para o Cape Epic já corria em provas de aventura vestida de rosa. A cor rosa surgiu porque nos esportes que estamos mulher é sempre a minoria. Queríamos nos diferenciar dos homens, pois as mulheres até no esporte se comporta diferente do homem. Por isso adotamos uma roupa mais feminina para mostrar que mesmo em esportes duros e de “macho” somos mulheres. Quando fui trabalhar no Cape Epic em 2008 para conseguir a vaga, vi que tinham muitas pessoas diferentes e falei para a Dri que teríamos que nos superar e, a Dri  (dona da FLOR e TRAPO) tratou de fazer bolsas, saias e modelitos para nos vestirmos iguais todos os dias depois da corrida. Os apetrechos divertidos encurtam a distancia entre as pessoas, é uma abertura para que aumente o contato com os atletas. Gostamos de divertir os outros e principalmente nos divertir. As anteninhas, capa, acessórios nada mais é do que um “reminder” nos avisando: “Competir é muito bom, mas o principal é se divertir sempre!”

Dri: A Luli já respondeu tudo, mas eu tenho muito a agradecer a Luli por me escolher como sua dupla, pois realmente nos damos muito bem, nos divertimos muito e claro, depois de uns dois dias de prova, os participantes começam a entender o que fazem duas meninas de rosa em plena prova. Repito a frase da Luli “Competir é muito bom, mas o principal é se divertir e divertir os outros”

CicloFemini: Qual é o seu principal objetivo enquanto atleta e ciclista?

Luli: Diversão sempre! Divertir os outros também, incentivar e promover a pratica do esporte, difundir a bike como meio de transporte, conhecer o mundo, conhecer amigos que compartilhem da mesma paixão, fazer muitas provas diferentes e exóticas.

Dri: Concordo com tudo, sem tirar nem por.

Dri e Luli

CicloFemini: Qual é o objetivo da dupla?

Luli: Até agora ainda não repetimos uma prova em estágio. Até agora as três grandes que completamos com muita energia e integraão fenomenal: Cape Epic, Transrockies e Claro Brasil Ride. Do segundo dia em diante a Dri e eu começamos a pensar nas mesmas coisas, uma fala o que a outra está pensando, é impressionante a conexão e ligação que a gente tem. Gostaríamos de conseguir fazer uma prova em estágio diferente por ano, em locais diferentes do mundo.

Dri: Parece brincadeira, mas eu e a Luli é impressionante, a gente nem se fala mais, é só olhar uma para outra e pronto, estamos conectadas. Nosso objetivo é continuar a fazer mais provas diferentes e claro sempre longas.

CicloFemini: Há quanto tempo existe a dupla?

Luli: Desde o Cape Epic de 2009. Nós duas nos conhecemos nas corridas de aventura, a Dri fazia parte da equipe Goiabada Power e eu da Uirapuru. Em 2009 nasceu a Flower People, a nossa equipe feminina!

Dri: Êta dupla boa!

CicloFemini: Vocês desenvolvem atividades independente uma da outra no ciclismo?

Luli: Não conseguimos treinar muito juntas porque a Dri mora em Santos e eu em São Paulo. Praticamos os esportes relacionados à corrida de aventura, caiaque, corrida e outros. Eu amo qualquer tipo de esporte. No ano passado descobri o stand up paddle, o ski bike, são tantos! Adoraria ter vários clones para sair por aí descobrindo modalidades. Acabei de voltar da meia maratona da Disney, sempre tem provas diferentes e outras malucas por aí.

Dri: Como disse a Luli, cada uma mora em um lugar. Aqui em Santos, pedalo,corro e remo. Mas no momento estou mais para bike do que qualquer outra coisa.

CicloFemini: Como vocês vêem a participação da mulheres no ciclismo? Tem aumentado?

Luli: Estão mais antenadas, mais participativas, mas ainda tem muito a fazer, crescer. O número de mulheres tem aumentado sem dúvida nenhuma, assim como o numero de ciclistas. Tem grupos incríveis de mulheres que pedalam e ainda são estilosas em cima da bike. Acho isso demais!

Dri: Pelo que vejo tem aumentado bastante. Santos por ser a cidade do esporte, é muito legal ver o que tem de mulheres treinando ciclismo e triatlon.

CicloFemini: O que vocês recomendam para as mulheres que desejam iniciar no esporte mas ainda não tiveram coragem?

Luli: Comprem uma bike e saiam pedalando. A liberdade que isso te dá é tão incrível, que você até esquece que esta se exercitando. É como se você pudesse tocar o mundo!

Dri: Primeiro: não pense muito, vá e tome uma atitude, pois o tempo passa e depois que começa a pedalar, você diz para você mesmo: “Por que não fiz isso antes”. É sério! pedalar te ajuda fisicamente e mentalmente. Agora para nós que gostamos de competir e qualquer uma pode fazer isso, é tudo de bom, é uma adrenalina que dá vontade de chorar, não importa a colocação, o que importa é estar lá e fazer o que tem que fazer. Pedalar é tudo de bom.

Dri e Luli

 CicloFemini: Como o mercado as vêem? Conseguem apoio ou existe muita dificuldade? O que falta para que haja mais incentivo ao esporte, mais apoio?

Luli: Somos bem vistas no mercado, porque temos um apelo de mídia bom. Temos vários apoiadores maravilhosos: a COFIDES de Portugal que faz os nossos uniformes de bike, a MORMAII que nos fornece óculos incríveis, não só de esporte, mas também uns fashions para acompanhar nossos modelitos, a Rocky Mountain desenvolveu e pintou de cor de rosa os nossos quadros da bike, só existem dois no mundo! a NEXPLORE de Portugal que representa as marcas EVOC e Eigrips, nos apóia com produtos. A NEAF fisioterapia que além do tratamento faço treinos funcionais. Somos muito gratas à todos, principalmente porque é muito difícil ter qualquer tipo de apoio aqui no Brasil. Tem que mudara cultura, temos que começar a enxergar mais esportes além do nosso querido futebol. Estamos engatinhando, mas acredito que estamos evoluindo a medida que bike e outros esportes estão mais difundidos. E não só a cabeça do atleta tem que mudar, mas o patrocinador tem que acreditar que o atleta pode sim dar retorno para a empresa.

Dri: Nem preciso comentar, Luli já falou tudo.

CicloFemini:  Vocês sofreram ou sofrem algum tipo de discriminação por ser mulher em um esporte onde os homens ainda são a maioria?

Luli: Quanto a ser mulher não vejo muito o preconceito, muito pelo contrário. Mas a gente sofre discriminação quando chegamos à uma corrida “Fantasiadas” e a turma já encara a gente e fala “essas aí não vão longe!” No começo da corrida somos vistas como as “bonitinhas sem treino” e no final da corrida somos sempre as “engraçadas, divertidas e  duronas”.

Dri: Como a Luli disse, por ser mulher, não. Mas quando chegamos em uma competição onde só tem pró e estamos com aquele uniforme, ai…ai…ai…, eu olho para cima , para baixo, e nem sei o que pensar, só sei, que temos que pedalar…pedalar…pedalar… e por aí vai. E como disse a Luli, no final os atletas, entendem o que é ser a Equipe Flower People.

CicloFemini:  Qual a profissão de vocês? São atletas profissionais? Exercem outra atividade além do esporte?

Luli: Eu tenho a Flower People, www.flowerpeople.com.br, uma empresa que decora casamentos e eventos, faz produção e ambientação. Cuidamos de todo o projeto de decoração de uma festa, de móveis, flores a iluminação. Faço isso há 16 anos. Tenho mais duas sócias na empresa o que me possibilita ter espaço na agenda para treinar e viajar bastante.

Dri: Eu tenho a Flor e Trapo, é uma empresa de bolsas e acessórios em tecidos. Eu mesma bolo e produzo tudo junto com minha costureira. Antes minha loja era dentro de uma Land Rover, agora é uma loja virtual, e-commerce, www.floretrapo.com.br.  Só tenho tempo bem cedo para treinar ou então a noite.

CicloFemini: Vocês usam a bicicleta no dia-a-dia? Andam pelas ruas da cidade?

Luli: Eu uso sim, deveria até usar mais, mas pelo menos uma vez por semana deixo o carro em casa. Aí vem a outra discriminação, não são em todas as reuniões com o cliente que eu posso chegar de bicicleta.

Dri: Como estou em Santos, muitas vezes vou trabalhar de bike, mas a vezes não dá. Utilizo umas três vezes por semana.

Dri e Luli

 CicloFemini: Conte um fato interessante ou inusitado.

Luli: Mais do que tudo isso? Não lembro de nenhum específico, acho que todo o estilo de vida já é bem inusitado..rs

Dri: Nossa… essa você também me pegou, só estando com a Luli para lembrarmos de algo. Sempre acontece alguma coisa com nós duas.

CicloFemini: Fale uma frase como recado às mulheres que pedalam e para as que querem iniciar no pedal.

Luli: Hum…posso colar a tão famosa do Albert Einstein? “Life is like riding a bike, to keep your balance you must keep moving!”

Dri: Pedalar lava a alma, nos faz mais feliz, trás liberdade e dá uma emoção que vem nem sei de onde. É como estar com a natureza, aliás, pedalar só trás coisas boas.