Ciclofemini
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A tragédia da mobilidade que afeta sobretudo as cidades grandes, mas que também é cada vez mais sentida em cidades médias, não poupa ninguém. Entretanto, algumas categorias são mais prejudicadas, entre elas os mais jovens, os idosos, a população de baixa renda, as pessoas com deficiência e as mulheres.

Isto ocorre porque as políticas públicas de mobilidade urbana não são pensadas para servir à sociedade, mas ao mercado e ao poder econômico que ele gera. Uma vez que as categorias que mais usam o veículo automotor são os homens adultos de média a alta renda, o sistema viário e o ordenamento do trânsito são projetados para eles.

Apesar do aumento de mulheres motoristas e proprietárias de automóveis, a realidade ainda é bastante desfavorável para elas. A divisão sexual do trabalho, definida ao longo dos séculos, também está sendo reformada, mas ainda prepondera, para as mulheres, a administração geral do lar, a dupla jornada de trabalho e a baixa remuneração relativa.

A bicicleta é um veículo vantajoso para toda a sociedade e apresenta a capacidade adicional de promover a igualdade de direitos entre gêneros. Uma vez que não é possível a constituição de uma sociedade na qual cada adulto possua um carro e o use diariamente, o caminho mais justo e democrático é a construção de uma sociedade que privilegie a mobilidade por meio de veículos coletivos e os meios não motorizados.

Muitas mulheres já percebem esta vantagem e incorporaram a bicicleta como um veículo, enquanto que outras gostariam de fazê-lo, mas ainda não encontraram meios. Ciente dessa realidade, a ViaCiclo realizou, em 2010, a pesquisa intitulada “A mulher e a bicicleta na cidade: sentimentos e aspirações de florianopolitanas”*, sob o convênio com ITDP/Ciudad Viva/Sustran-Lac, visando compreender as especificidades do pedalar feminino e seus pontos de vista acerca da mobilidade urbana.

O estudo Género y Transporte Urbano: Inteligente y Asequible (GTZ, 2007), afirma que aplicar uma perspectiva de gênero à mobilidade, entre outras funções, “atende a demanda por serviços de transporte através de uma melhor compreensão das diferentes necessidades, preferências e limitações dos usuários finais, tanto homens e mulheres”.

O mesmo estudo destaca que “Geralmente, quando se comparam mulheres com homens em áreas urbanas, elas tendem a fazer mais viagens, mais curtas e em tempos variados, com maiores custos de tempo e dinheiro; as mulheres precisam de um serviço porta a porta, de baixo custo, confiável e amigável, flexível e com muitas opções de rotas para atender às suas necessidades.”

Para averiguar a situação em Florianópolis, foram selecionados dois grupos de mulheres, a saber:

• Ciclistas experientes: 5 mulheres que usam regularmente a bicicleta como meio de transporte; o objetivo de entrevistar esse conjunto é obter uma avaliação de mulheres que, não obstante as dificuldades, vivenciam cotidianamente as ruas de bicicleta;

• Aspirantes a ciclistas: 5 mulheres que não pedalam, mas que gostariam de fazê-lo; o objetivo de entrevistar esse conjunto é entender as razões que, apesar de seus desejos, as mantém ainda afastadas do veículo; este conjunto pode ser interpretado como uma “demanda reprimida” de ciclistas na cidade.

Todas as mulheres entrevistadas têm em comum o fato de terem começado a pedalar na infância, sendo que as Aspirantes deixaram de fazê-lo em torno da adolescência. Estamos falando de mulheres entre 22 e 53 anos, de variadas situações socioeconômicas, solteiras e casadas, mas que associam a bicicleta à eficiência, à liberdade e à saúde.

Tanto aquelas que pedalam quanto aquelas que buscam meios de fazê-lo reconhecem que a periculosidade do trânsito e o despreparo do sistema viário para acolher as modalidades não motorizadas são fatores limitantes, causando naquelas pelo menos um desprazer, e nestas o impedimento.

Nem todas as pessoas possuem a mesma destreza ou condições psicofísicas para usar a bicicleta, mas as mulheres reconhecem que os homens, em geral, são mais destemidos e ousados para enfrentar o trânsito de bicicleta.

Este ponto de vista coincide com o estudo do GTZ, para quem “as mulheres usarão menos bicicleta se não existem vias apropriadas para transitar ou se não existem áreas seguras para elas moverem-se pedalando”. Assim sendo, as reivindicações básicas são a construção de vias seguras e confortáveis para o uso da bicicleta e o respeito por parte dos condutores motorizados.

E o uso do gênero aqui está correto: “os” motoristas homens reproduzem, também no trânsito, a doutrina machista que ainda permeia a representação social de gênero. Buzinadas, gracinhas e outras ofensas travestidas de simpatia atentam contra a dignidade das ciclistas, causando, não raro, riscos adicionais de acidentes.

A bicicleta é utilizada, pelas Experientes, para cumprir todas as funções, mas nem todas arriscam-se em grandes distâncias. Já as Aspirantes ressentem-se de não poderem aproveitar os benefícios que a bicicleta está habilitada a conceder, por isso usam o transporte público e/ou o carro para qualquer tarefa.

Apenas uma afirmou, mas todas demonstram-se conscientes de que usar a bicicleta representa uma grande contribuição individual à qualidade de vida social e à sustentabilidade ambiental. Estudos esparsos e sem profundidade realizados em Florianópolis nos últimos anos, citados no Relatório da pesquisa, confirmam o que a observação empírica informa: dentre os ciclistas urbanos, as mulheres não representam mais do que 25%, esse índice caindo bastante em regiões onde o trânsito é mais denso. Uma vez que não podemos aceitar que as mulheres possuem menos consciência social e ambiental do que os homens, somos levados a creditar esta disparidade à falta de infraestrutura cicloviária e de outras condições de segurança para o pedalar.

Tomando por base as mulheres entrevistadas, podemos afirmar que as mulheres de Florianópolis pedalam com consciência e com coragem – mas essas qualidades não faltam às mulheres que ainda não passaram da vontade de pedalar, essas qualidades faltam aos gestores públicos.

A igualdade de direitos tem sido conquistada pela própria força das mulheres, que têm forçado a elaboração de regramentos pelo Estado e, paulatinamente, intervido nos valores sociais. No que tange à mobilidade, pode-se perceber que o Estado tem ouvido apenas aquelas mulheres que reafirmam o modelo construído pela sociedade machista, que confundem mudança de mundo com inclusão no mesmo mundo.

Falta, portanto, consciência e coragem aos gestores públicos para empreender autênticas mudanças, baseadas em autêntica igualdade de gênero, tarefa esta que ainda está em andamento.

*Ver o Relatório do projeto, entrevistas na íntegra, referências bibliográficas e demais informações em www.viaciclo.org.br/portal/atividades/mulher

Artigo gentilmente cedido pela Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis

http://www.viaciclo.org.br/portal/index.php