Vamos falar um pouco sobre o poder que as nossas convicções têm de remodelar a realidade e seus efeitos positivos e negativos em nossa vida.

Inicialmente é preciso fazer uma diferenciação entre os três níveis de remodelagem: o pensamento positivo, a auto-sugestão e a legítima convicção.

  • Pensamento positivocostuma ser uma tentativa de auto-sugestionar-se. O detalhe é que a grande maioria das pessoas tenta usar esse recurso de forma superficial, ou seja, enquanto a pessoa está “pensando positivamente”, nos aspectos mais profundos de sua psique está “sentindo negativamente”, dizendo pra si mesma: “Ah, quem você está querendo enganar?!”… Em outras palavras, se não existir nenhum convencimento de que aquilo realmente é, simplesmente não funcionará. Mas se o “pensamento positivo” possui um alcance maior, se tornará uma auto-sugestão.
  • Auto-sugestãoé uma estratégia mental, que visa inserir voluntariamente um novo conceito, uma nova percepção. Quando uma pessoa reflete sobre um erro (que ela já sabe que é um erro), está aplicando essa técnica, já que a sua reflexão tem a intenção de chegar a uma conclusão específica. A eficácia da auto-sugestão está diretamente condicionada à capacidade de estabelecer uma lógica convincente, para que então a percepção se adapte ao novo modelo inserido, sem que a dúvida se instaure posteriormente. Auto-sugestão requer concentração, análise profunda e coerência. Note-se a diferença do chamado pensamento positivo. A auto-sugestão é um processo que, quando bem conduzido, se converte ao final em uma convicção.
  • Convicção é uma certeza que temos, baseado em estruturas mentais que utilizamos para interpretar o mundo. Essas estruturas costumam ser muito sólidas, profundas e inabaláveis, de modo que a convicção se torna uma poderosa aliada ou uma poderosa inimiga, dependendo do que ela nos faz crer que é a verdade, pois todas as nossas energias psíquicas e físicas são mobilizadas para viver aquela realidade.

Nosso cérebro utliza os estímulos que recebe para reconstruir uma interpretação da realidadeVocê já reparou que o nosso cérebro é um simulador holográfico da realidade? Nós captamos o mundo exterior com os sentidos e enviamos esses dados para o cérebro que, baseado nesses impulsos nervosos, constrói uma interpretação da realidade, a partir dos conhecimentos que estão armazenados na memória (e principalmente, no subconsciente). E então o cérebro emite uma resposta para o corpo.

O estímulo dos sentidos traz uma associação psicológica (armazenada no subconsciente) e é diante dessa associação que o cérebro emite uma resposta. Por exemplo: uma pessoa vendo um tigre correr na direção dela e vendo um filme com a imagem de um tigre correndo na direção dela provocam reações muito distintas no cérebro. Os sentidos, portanto, são apenas um gatilho que faz disparar emoções e impulsos que estão associados àquele tipo de acontecimento.

E por que isso é importante saber? Isso é importante para entendermos que o cérebro não diferencia o que realmente estamos vendo do que estamos imaginando. Se uma pessoa lembrar da discussão que teve alguns dias atrás e que a feriu muito, o cérebro novamente vai jogar muita adrenalina na corrente sanguínea, para que se possa lutar contra o inimigo (embora o “inimigo” esteja agora somente na recordação). Se fecharmos os olhos e pensarmos em um copo de suco de limão purinho, sem água nem açúcar, a boca fica cheia de saliva. Resumindo, o corpo reage ao estímulo que lhe damos, seja esse proveniente dos sentidos ou da imaginação, não importa.

A neurociência e, mais especificamente, a psiconeuroimunologia têm estudado esse mecanismo de modo a entender como podemos utilizá-lo ao nosso favor, na cura de enfermidades. Segundo o dr. Thierry Janssen, em seu livro A Solução Interior, diz que “um estudo publicado no Journal of the American Medical Association, em 1955, por Henry Beecher, da Universidade de Harvard, indicava que, em 35% dos pacientes, a dor era aliviada pela ingestão de um comprimido de açúcar ou uma injeção de soro fisiológico”. Ou seja, um placebo teria o poder de fazer o cérebro ativar os mecanismos inibidores da dor em muitos pacientes, pelo simples fato de que eles estavam convictos que estavam sendo medicados de verdade. Nesse mesmo livro são citadas outras dezenas de pesquisas científicas que apontam na mesma direção. Isso indica que nosso organismo é uma máquina pronta para responder de acordo com a leitura que o cérebro faz dos fatos.

Na saúde, assim como existe o efeito placebo existe o efeito nocebo, em que a pessoa se torna convicta que está com alguma doença e os sintomas realmente começam a se manifestar. É incrivel perceber que nossas crenças podem nos levar a construir uma realidade orgânica e psicológica, tanto positiva quanto negativa.

No aspecto psicológico, as crenças que nós adquirimos de nós mesmos delimitam algumas capacidades e expandem outras, para nos tornarmos um retrato fiel da pessoa que acreditamos que somos. Daí a importância de uma educação infantil bem dirigida, pois a criança se tornará aquilo que ela mesma se convenceu que é. Uma criança, por exemplo, que faz um desenho e é estimulada, elogiada, que o desenho está muito bonito, etc., quando pegar outra folha para fazer um novo desenho, já parte da certeza de que está desenhando bem e, para agradar novamente, capricha muito mais que antes, fazendo assim com que sua técnica vá se aperfeiçoando e a realidade imaginada vai se tornando realidade concreta. O mesmo, infelizmente, ocorrerá em uma criança que é chamada de burra e é comparada com outras de forma negativa. Ela vai tomar pra si essa certeza e não terá estímulo para ser diferente do que lhe convenceram que ela é. Ou seja, todas as nossas capacidades estão programadas para atingir um limiar que nós convencionamos, segundo nossas convicções. E o propósito do autoconhecimento é encontrar essas barreiras interiores e superá-las.

Nosso vícios, traumas, medos, etc. nos aprisionam na proporção em que nós acreditamos que não conseguimos lidar com eles. Muitas vezes, por incrível que pareça, o ser humano se programa a não conseguir se libertar psicologicamente de algo, porque não consegue enxergar como ele próprio seria sem aquele problema. Então cria um mecanismo que, passado certo tempo, faz voltar à estaca zero. Toda pessoa que se pega pensando, por exemplo, que é estranho como faz tanto tempo que ela não comete tal ou qual erro, seguramente é vítima desse condicionamento vicioso.

Não podemos esquecer dos efeitos espirituais das convicções, das crenças, da fé. Assim como no aspecto da saúde e da psicologia, esses também apresentam o lado bom e o lado ruim. Da mesma forma que uma pessoa com uma forte espiritualidade pode abrir sua percepção para entrar em sintonia com forças sutis, permitindo uma experiência mística profunda, ela pode condicionar todo esse manancial de percepções sutis para canalizá-los em um personagem, criando assim a idolatria por alguém ou algum objeto sagrado, etc.. Isso deve-se ao fato de que a pessoa atribui a objeto (e não a si mesma) o que está sentindo e daí vem a confusão.

Portanto, pra concluir, podemos dizer aos céticos de plantão que, se não duvidarem da sua convicção cética, nunca vão ver nada. E aos fantasiosos que fazem de qualquer coisa do cotidiano um fenômeno simbólico, se não dosarem a excessiva predisposição a ver suas convicções em todas as coisas, nunca vão conseguir enxergar o mundo real. Equilíbrio entre convicção e desconfiança (desde que sadia) é a chave para aprender a usar nosso potencial latente e superar limitações mentais impostas por convicções nocivas. Com grande sabedoria, um estranho personagem (descrito por Armando Cossani no livro “O Vôo da Serpente Emplumada” como sendo o próprio Judas bíblico) escreveu mais ou menos assim:

“Não duvides da dúvida e duvida. Porém duvida com fé. E ainda duvida da fé. Pois, não é a dúvida a parada na descida da fé até a obscuridade, E a força e o impulso para alcançar a compreensão?

Por isso, duvida, De tudo quanto acredites ser verdadeiro Pois a dúvida também é verdadeira, em si e por si.

Duvidando da dúvida, porém duvidando com fé, e da própria fé Verás o ilusório da dúvida E a fé cairá aos teus pés

Para erguer-se, majestosa, A dúvida convertida em Verdade.”

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