Nestes bons anos que tenho me dedicado aos trabalhos de consultoria, perdi a conta de quantas vezes a metáfora da caminhada, da escalada, da velejada e outras “adas” foram utilizadas para exemplificar procedimentos e técnicas de gestão.

Quando se fala de planejar um negócio, a rota ou critical paths é importante; Os pontos de verificação ou milestones e os indicadores de desempenho empresarial ou dashboards.

Ao observarmos o dia a dia das empresas, principalmente nas que se dedicam aos chamados negócios eletrônicos, vemos que é cada vez mais difícil engajar as pessoas nos espírito da empresa, fazendo com que as definições estratégicas cheguem a todos de maneira clara e, sobretudo assimilada – o assimilar é estágio maior do entendimento, quando uma forma de agir está tão enraizada no indivíduo que ele age instintivamente.

Utilizando novamente do ferramental metafórico, vou buscar um exemplo de simplicidade que a grande maioria de nós enfrentou na infância, considerado um rito de passagem e talvez a primeira grande conquista que temos na memória: O andar de bicicleta.

Os componentes apresentados eram os seguintes:

• A bicicleta já devidamente desprovida de rodinhas laterais.

• Um caminho, geralmente reto, na praça do bairro, no clube ou na praia.

• O tutor, nosso pai, mãe , irmão mais velho ou alguém que dominava os segredos daquela façanha chamada andar de bicicleta.

Não adiantava explicar como fazer, por mais que alguém nos falasse, era preciso sentir. Não há como definir uma regra escrita de como manter o equilíbrio, assim como existe a dificuldade de explicar pontos da estratégia corporativa para todas as pessoas na empresa.

Hoje analisando minha façanha, então no auge da sabedoria dos meus seis anos de idade, vejo que existiam três coisas que precisavam ser controladas simultaneamente, com igual urgência e importância: a direção, a propulsão e o equilíbrio.

Se não houvesse propulsão (pedaladas) não iria a lugar nenhum, contudo velocidade demais era chão na certa.

A direção em linha reta era fácil, mas para fazer a volta era mais complicado, assim como nas empresas, é sempre mais fácil seguir fazendo do jeito que está do que tentar uma curva, um desvio e até um retorno.

Por fim, o equilíbrio este componente que precisava ser sentido, encontrado a cada pedalada e que no final era a combinação de todos os outros fatores.

Quando atingi o tal do equilíbrio, foi como se tudo estivesse sob controle absoluto, me sentia confortável, negligenciando tanto a direção quanto as pedaladas e novamente a gravidade exerceu se papel de professor – assim como o mercado e os clientes fazem com nossas empresas.

Sugiro que na próxima reunião executiva, de planejamento ou o nome que tenha, revisitemos nossas empresas sob a ótica destas três dimensões:

Direção – sabemos para onde vamos, por quanto tempo vamos, como faremos desvios, freadas, retornos e até mesmo como levantaremos se por acaso cairmos?

Propulsão – o que nos impulsiona e nos dá continuidade, estamos pedalando ladeira acima, no plano ou ladeira abaixo? É possível parar de pedalar e mesmo assim continuar progredindo em distância ? Finalmente,

Equilíbrio – se olharmos as voltinhas que já demos na praça podemos dizer que foram equilibradas? Já conseguimos manobrar sem colocar o pé no chão? Quais as curvas mais difíceis de fazer ?

Esta reflexão pode nos revelar vários pontos onde o aprendizado corporativo precisa de reforço, tanto na forma de capacitação como de exposição. Enquanto tínhamos medo de cair, foi impossível aprender a andar de bicicleta ou pior ficamos apoiados em desculpas e zonas de conforto que na época eram somente inocentes rodinhas laterais.

 

Edson Carli é economista, empresário e possui 30 anos de carreira, tendo passado por todos os níveis de trabalho na área de tecnologia, começando como auxiliar de operação e chegando a CIO. Em sua carreira de executivo, dirigiu importantes empresas do setor como IBM, KPMG e Neoris do Brasil. Há sete anos criou com outros sócios a GDT Brasil – Gestão de Talentos, empresa especializada em gestão de pessoas, onde responde pela diretoria de consultoria. Edson é autor do livro Autogestão de Carreira, você no comando da sua vida.