Esta entrevista ocorreu em junho deste ano, mas vale a pena ler novamente. David Byrne, escocês radicado em Nova York, 59 anos, apesar de ser mais conhecido aqui por sua música, desde que liderou a banda Talking Heads nos anos 70/80, e por sua relação intensa com o Brasil (revigorou Tom Zé e Mutantes) é autor de “Diários de Bicicleta”, lançado no Brasil no fim de 2009 pelo selo Amarilys, da editora Manole, é cicloativista e especializado em mobilidade urbana.

Folha – O título “Diários de Bicicleta” remete aos “Diários de Motocicleta” de Che Guevara. É uma maneira de dizer que cicloativismo é uma forma de guerrilha?

David Byrne – O titulo tem um pouco de brincadeira, também –a bicicleta é consideravelmente menos macho que uma moto, mesmo uma caindo aos pedaços como era a dele [Che].

Se é uma forma de ativismo? Sim, da forma mais profunda possível. Representa, para mim, uma decisão silenciosa de ter uma vida mais humana diante de um mundo que frequentemente nos seduz com o oposto –progresso e novidade que temos de comprar. É também uma rejeição de status –o que torna isso quase antidarwiniano.

Como o cicloativismo pode mudar a realidade?

É um pequeno passo. Como alguém que decide não comer carne em toda refeição. Muito pequeno, mas que funciona. Não calculei quanto economizei ao abrir mão de um carro, mas desconfio que foi bastante, especialmente aqui em Nova York.

Embora você tenha estado várias vezes no Brasil e tenha uma relação forte com o país, não há nenhum capítulo brasileiro nos seus “Diários de Bicicleta”. Por quê?

Não pedalei muito [no Brasil] –uma vez em São Paulo, um pouco no Rio, uma vez na Bahia. Poderia ter exagerado o quanto andei de bicicleta para escrever principalmente sobre o meu interesse em todas as coisas do Brasil, mas seria meio falso parecer que eu tivesse explorado essas cidades de bicicleta.

Como foi o convite e por que topou vir à Flip? Qual a sua expectativa para o festival? Pretende falar apenas de bicicleta, ou haverá espaço para música e para literatura? Há alguma chance de você cantar?

Acho que o pessoal da Flip soube que eu estava fazendo esses eventos sobre bicicletas e cidades em outros países e que meu giro sul-americano pra fazer isso seria na mesma época do festival –o qual eu já conhecia, claro–, então perguntaram se eu tinha como levar isso para a Flip.

É meio inusual –não vou ler meu livro e hesito em chamá-lo de literatura–, mas deve haver debate e troca de ideias. Não é ruim misturar disciplinas, juntá-las um pouco. Não acho que vou cantar em nenhum momento, exceto no chuveiro.

Li que em toda viagem você leva uma bicicleta dobrável. Levará uma a Paraty?

Não, as companhias aéreas estão muito rigorosas. Mas com sorte consigo alugar uma e dar umas voltas pelo litoral.

Mas você sabia que Paraty é uma cidade histórica cujo centro é pavimentado com pedras que não convidam a pedalar?

Mas é uma cidade pequena, então caminhar será legal.

Depois da Flip você participará em São Paulo de uma conferência sobre bicicletas e urbanismo [um fórum no Sesc Pinheiros no dia 12]. Poderia dar mais detalhes a respeito?

O evento de São Paulo será mais típico. Um evento como esses inclui um representante do governo municipal, um [órgão] ativista local de novas formas de transporte, um historiador ou urbanista e eu. Cada um faz uma apresentação curta e então abre-se para perguntas e respostas. A maioria das perguntas normalmente são dirigidas à pessoa da prefeitura (que em alguns casos é o prefeito), o que é bom, pois mostra que o público está mais interessado em melhorar sua própria situação do que comigo.

São Paulo acaba de atingir a marca de 7 milhões de veículos e conta, segundo dados de entidades do setor, com apenas 57 km de vias para bicicletas, boa parte delas dentro de parques. O que você sabe sobre a cidade em relação a isso e como vê a situação?

A cidade é enorme, se espalha por toda parte, então ir de um lugar a outro de bicicleta não é realmente possível. Talvez seja possível com uma combinação entre trem e bicicleta (se os trens tiverem espaço para bicicletas)… E, se algumas pessoas trabalharem ou tiverem vida social relativamente perto de suas casas, então fica relativamente fácil fazer redes locais.

Embora as ciclovias em parques sejam maravilhosas –eu as uso aqui [em Nova York] para cruzar a cidade sem pegar muito trânsito–, não resolvem a questão do transporte público.

Tendo a ver as bicicletas como um meio de locomoção, como parte de uma rede de transporte (trens, ônibus, troles), e não em primeiro lugar como forma de diversão, esporte ou exercício. Fazer mountain bike ou ciclismo é legal, assim como pedalar aos domingos no parque, mas essas atividades tendem a ser encaradas como algo à parte de nossa vida, sem estarem integradas à nossa rotina diária.

Você cita no livro que o tráfego de bicicletas em Nova York cresceu 35% entre 2007 e 2008. O que é preciso para uma cidade alcançar isso?

Não sou especialista nessas estatísticas –algumas ciclovias estavam surgindo naquela época, mas muitas mais ainda não saíram–, então não tenho certeza. Eu desconfio que era o zeitgeist.

Você viu o vídeo em que um motorista atropela um grupo de ciclistas em Porto Alegre em fevereiro? O que acha dessas coisas?

Sim, eu vi isso. E também houve casos em que a polícia de NY tratou ciclistas desse jeito. Há aí muita raiva. Eu mesmo me irrito com ciclistas que não param no sinal, que competem desrespeitosamente com pedestres ou que pedalam na direção errada. Mas nem por isso eu os atropelo!

No livro você critica os projetos de Le Corbusier para cidades em meio a uma rede de vias expressas. O que acha de Brasília (e de Niemeyer e Lúcio Costa) nesse aspecto?

Bem, embora Nimeyer tenha projetado prédios bonitos e espetaculares, me parece que Brasília não é uma cidade que socialize as ruas –pelo menos não na área planejada que eles criaram. Le Corbusier tem a famosa frase: “Temos de matar a rua”. Esses arquitetos odiavam o caos das ruas, a falta de ordem –mas há nisso vida e criatividade também. Uma rua viva é como um recife de coral –há todo tipo de coisa acontecendo ao mesmo tempo, há ordem, mas não uma ordem imposta. Em vez disso, há uma ordem emergente, que surge naturalmente da interação dos seus habitantes.

No final dos “Diários de Bicicleta” você menciona a influência de “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso, para seu livro. Poderia explicar melhor?

O livro de Caetano, com seus muitos desvios e digressões, e o de WG Sebald (“Os anéis de Saturno” [também citado]) –que usa um passeio pelo interior da Inglaterra como um fio ligando um monte de estórias à história–, foram inspiração e modelos para o que eu esperava que meu livro pudesse ser. Senti que seguir uma linha de pensamento, de interesse e curiosidade, pode ser semelhante a como nós descobrimos o mundo em nossas vidas, e embora as conexões racionais não sejam sempre claras, o caminho ainda pode soar natural e familiar.

Como a sua experiência de ciclista influencia seu trabalho artístico?

Não muito, embora a experiência [de pedalar] signifique que eu posso parar e o olhar para alguma coisa, alguém ou algum lugar sempre que eu quiser. Eu às vezes então tiro uma foto –que não é propriamente arte, mas uma forma de anotação visual.

Quais os seus atuais trabalhos artísticos/musicais? Tem planos de tocar ou exibir algum trabalho no Brasil?

Gostaria de ter levado minha última turnê ao Brasil. A crise econômica impediu. Bem, tentarei na próxima. No momento trabalho em outro livro, desta vez sobre música. Também estou trabalhando numa espécie de musical sobre Imelda Marcos [ex-primeira-dama das Filipinas] e a revolta popular que removeu os Marcos do poder. Deve demorar um ano até terminar, mas começamos uma oficina amanhã. Bem excitante.

Você revigorou Tom Zé e ajudou a revalorizar os “Mutantes”. Que artistas brasileiros atuais lhe agradam? Pensa em lançar algum deles?

Deixei para Yale Evelev continuar com o selo que comecei [Luaka Bop]. Não sei dos planos dele em relação a artistas brasileiros.

Lenine, Tiê, Tulipa, Céu, Fino Coletivo, Cidadão Instigado… Há muita coisa que gosto entre o que ouvi recentemente!

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/932380-bicicleta-e-rejeicao-a-status-diz-david-byrne-em-entrevista.shtml