Cristiane A. Sato, 48 anos, casada, dona de casa, advogada, voluntária em várias causas uma delas é a de japanóloga (pesquisadora / ativista de cultura japonesa), editora do site Cultura Japonesa (www.culturajaponesa.com.br), escritora, escreveu o livro “Japop – O Poder da Cultura Pop Japonesa” (www.japop.com.br), preside a ABRADEMI – Ass. Bras. de Desenhistas de Mangá e Ilustrações (www.abrademi.com), é voluntária em campanhas relacionadas à Terceira / Melhor Idade e ao Diabetes e está trabalhando num outro livro.

Poxa, com tantas atribuições quase me esqueço de dizer que Cristiane é ciclista urbana e cicloativista!

Cristiane, após 30 anos sem pedalar recomeçou há 2 anos. Segundo Cristiane a ideia de fazer uso da bike como meio de transporte foi a de unir o útil ao necessário. “Eu estava com dificuldades para controlar o diabetes e minha médica disse que eu tinha de aumentar a atividade física. Em São Paulo gasta-se mais tempo em deslocamentos ou parada no trânsito do que se exercitando numa academia, e é mais caro ficar com o carro estacionado do que encher o tanque. Em viagens ao exterior eu via direto o pessoal usando bicicletas para ir e voltar da escola, do trabalho, das compras, e morria de vontade de fazer o mesmo. Reconheço que minha motivação não era das mais altruístas, colaborar com a despoluição e reduzir congestionamentos são consequências naturais do uso da bike, mas optar pelo pedal pareceu a escolha lógica diante dos problemas que eu tinha” – conta Cristiane.

Cristiane contou que para iniciar a pedalar teve que superar o medo, o dela e o do marido e também a falta de prática: “Infelizmente quando comecei não havia a Escola de Bicicleta Ciclofemini, daí que eu procurei a bike-escolinha que havia no Parque das Bicicletas em Moema. Depois de aprender as regras de trânsito e de sinalização passei um mês treinando no “chiqueirinho” (apelido da mini-ciclovia) e no parque para ganhar condicionamento físico, comisto comecei a ter surtos hipoglicêmicos. Ia à médica, mudava a medicação, adequava a alimentação, e voltava a pedalar. Aos poucos desenvolvi uma disciplina que ajudou a diminuir o receio do maridão e meu medo de encarar a rua, como evitar as avenidas de tráfego rápido, sempre dizer qual o trajeto que vou fazer antes de sair, sempre levar água e lanchinho para evitar a hipoglicemia, sempre usar capacete e iluminação, etc. Ganhei prática de andar de bike pelas ruas (podia ser “luas” pela quantidade de crateras, buracos, paralelepípedos e cascalhos), mas algum medo ainda tenho”.

Cristiane conta que o habito de pedalar lhe trouxe muitos benefícios a sua saúde, mas o principal foi perder o vício da “auto dependência” (auto de automóvel). “Não sou contra o carro. Apenas percebi que a sensação de segurança ou de independência que eu tinha em relação ao carro era muito enganosa. Hoje em dia viramos refém do carro – em função dele nos tornamos alvo da cobiça de bandidos ou presas fáceis em congestionamentos e enchentes. Em termos de mobilidade acho que a simplicidade da bike é a independência definitiva (não me senti afetada por nenhuma das greves de ônibus e metrô desde que comecei a pedalar), nem pelos congestionamentos monstruosos nos horários de pico. Acho também que a sensibilidade da gente muda em relação à cidade e às pessoas porque passei a reparar mais nos detalhes que nos escapam quando estamos isolados dentro de um carro às pressas, como o comércio local, os vizinhos, etc. Enfim, o humor e a auto-estima melhoram. Voltei a usar salto alto, pois o exercício de pedalar me deu mais firmeza nos pés e nas pernas” – fala sorrindo Cristiane.

“Há uma diferença de comportamento entre os motoristas masculinos e femininos. No trânsito normalmente eu tenho mais cautela diante de mulheres ao volante do que com homens ao volante. Por exemplo, excetuando alguns motoristas de caminhão, ônibus e táxi, os homens em geral diminuem para eu passar num cruzamento e eu agradeço mesmo sabendo que é minha preferencial. Eu me preocupo com mulheres apressadas mexendo no celular, o que infelizmente é muito frequente. Já tomei várias fechadas de mulheres assim” – finaliza Cristiane.

Veja seguir as Dicas Preciosas de Cristiane

BICICLETAS DE CRIS

Tenho uma mountain bike básica que acessorizei a ponto de ficar quase irreconhecível. Nas ruas de São Paulo a construção “fortinha” da mountain é boa para enfrentar as calçadas e ruas irregulares e esburacadas, coloquei para-lamas, cestinha de guidão e sacolas traseiras para compras.

Tenho também uma urbana dobrável de alumínio. A uso quando preciso ter mais mobilidade; por ser leve e dobrável posso carregá-la dentro do metrô.

PEDALAR COM SEGURANÇA

Misturar iniciativa com cautela e preparo. Tem muita gente comprando bike e saindo para pedalar de qualquer jeito, e isso sim é perigoso!

Aprender como usar corretamente a bike respeitando as regras de trânsito, já tem barbeiro demais por aí e ciclista não precisa ser mais um. No trânsito de São Paulo não há espaço sobrando.

Sempre checar a bike (pneus, freios e guidão) e vestir acessórios de segurança antes de sair. Mesmo no calor não dispenso luvas nem capacete.

Nunca substituir pressa por segurança. Nas avenidas vou sempre pela calçada e evito rotas de atalho se forem ruas mal frequentadas ou que não conheço.

São Paulo não é uma metrópole “bike friendly” como Nova York ou Paris, mas está tentando se tornar uma. Como no Brasil tudo é feito na base do correr atrás do atraso e de atender demanda reprimida, quanto mais gente pedalando de forma consciente e exigindo do poder público ciclofaixas decentes e ciclovias, melhor. Preparo físico e controle emocional acho que são condições básicas para qualquer coisa na vida. No meu caso a coragem para andar de bike na rua dependeu mais de planejamento e conhecimento prévio das condições do percurso que eu ia fazer. Eu andei antes a pé ou de carro por boa parte das rotas que hoje faço de bike para checar onde era mais seguro, ou quais os pontos de risco. São Paulo é enorme e complicada, mas lembro da historinha do João e o Pé de Feijão e a lição de que sempre existe um jeito do pequeno dominar o gigante.

MEDO

Ainda tenho medo, e acho isso bom porque ele me mantém com o pé no chão. No início o exercício ativava os hormônios e me davam a sensação de ser “poderosa”, “fortona”. Isso me levou a arriscar um pouco mais no trânsito e percebi que a minha própria atitude era o meu maior risco. Hoje apesar dos hormônios ativos ajo como uma ciclista medrosa e lerdinha para manter a segurança ao andar de bike.

MODA E BELEZA

Uso qualquer tipo de roupa. Prefiro algo bem comum como camiseta, calça jeans e tênis, mas já usei terninho e até vestido (tenho vários para andar de bike). Sempre uso capacete e luvas. Sempre carrego uma jaqueta leve para o caso de esfriar. Fora isso às vezes uso manguitos e lenço ou bandana no pescoço para proteger do sol. Usar roupas comuns me permite ir a qualquer lugar (ao trabalho, ao banco, ao restaurante, ao shopping) sem problema. Mas faço pequenas adaptações para tornar isso viável, como usar tiras de silicone para sapatos de salto ou sapatilhas não saírem do pé, e uso uma bermuda sob o vestido. Também tenho bolsas que podem ser usadas como mochilas nas costas.

Quando chego ao trabalho, normalmente lavo o rosto e dou uma retocada leve na maquiagem. Sempre passo bloqueador solar e maquiagem antes de sair de bike. Carrego uns lenços umidecidos na bolsa para o caso de transpirar um pouco mais. Uso cabelo preso porque é mais prático para tirar e pôr o capacete, e me dá uma aparência mais arrumada.

O QUE FAZER PARA INICIAR

Um pensamento me fez sair da vontade e partir para a prática do pedal: “Em alguns anos serei uma velhinha e vou andar de carro pelo resto da vida. Agora ainda tenho condição de andar de bike, mas não sei até quando vou poder me dar ao luxo de fazer isso”. De repente percebi que andar de bike era exatamente isso – o verdadeiro luxo desta fase da minha vida. Aí veio a coragem.

Meu marido não queria de jeito nenhum que eu andasse de bike devido a um trauma (na adolescência ele presenciou o atropelamento de um primo que trafegava de bicicleta pelo acostamento de uma estrada). O risco sempre existe para quem anda de bike em via pública, mas eu também ponderei que certas coisas na vida têm prazo. Fiquei 30 anos sem usar um conhecimento que adquiri ainda criancinha, e não sei por quanto tempo terei condições de fazer essa simples e tão prazerosa proeza que é pedalar. Através de disciplina e cautela para andar de bike consegui a compreensão e o apoio do maridão, e isso nos uniu tanto quanto se ele pedalasse junto comigo.